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Viagem ao centro do “Eu”: Realidade e tempo

Postado por Renan Barreto On 13:16



Tempo e realidade. Dois aspectos do universo que não sabemos bem o significado. Depois da minha conversa com Caos, percebi que tanto a realidade não existia como o tempo também não era relativo. Ambos foram criados pelos seres humanos para tentar entender o que é o universo, o que é o tudo. Entretanto, foram artifícios que não levaram a humanidade a lugar nenhum. Na verdade, o tempo é o agente destruidor. É ele que sempre é culpado pela destruição e aniquilação dos planetas segundo os seres humanos. Homo sapiens... sabem nada. O tempo só seria cruel se realmente existisse... A única certeza que tenho no momento é que a única realidade que existe é a ilusão.

- Você está bem, meu caro? – perguntou-me Caos enquanto nossas consciências pairavam no limbo branco e luminoso.

- Estou sim. Só estive pensando o porquê de não ter mais meu corpo, minha forma. Sinto falta da minha identidade.

Novamente ele riu de mim. Algo que já estava se tornando freqüente. Me sentia uma criança, se bem que perto dele eu era um zigoto – Ah! Ah! Ah! Você não tem corpo porque preso você não poderá entender nada. Vamos chamar seu corpo de caverna, assim vocês humanos entendem melhor.

- Gostei da piada. Mas isso significa que eu estou fora dela? Na luz?

- Sim.

- Mas eu preciso perder minha identidade para sair dela? O que adianta ter meu corpo na caverna? Eu no momento sou apenas metade de mim.

- Todo ser vivo é feito de matéria e energia, jovem. Você no momento é pura energia. Apenas sua consciência vive. Seu corpo pode morrer, seu corpo é uma prisão, uma prisão sensorial. Seus sentidos limitados lhe enganam e lhe enganaram desde que nasceu. Eu não posso dizer que agora você irá compreender tudo, mas está a um passo disso sendo energia e não matéria. Sua identidade não está na forma como lhe vêem e sim na forma como é realmente. A sua energia, a sua consciência é a sua identidade e não sua forma corpórea. Imagina se pessoas feias só fossem vistas com suas carcaças horrendas? Seriam pessoas ruins. Entretanto, a energia, suas consciências podem ser limpas, podem ter energias positivas em excesso, ou seja, podem ser pessoas maravilhosas. Como o contrário pode acontecer também...

- Beleza interior? Já me falaram disso.

- É a mais pura verdade. Talvez uma das poucas verdades que o ser humano tenha conseguido descobrir por conta própria.

- Está certo, compreendi isso. Só que a realidade é difícil de entender...

- Claro que é difícil. Concordo plenamente. É difícil de entender aquilo que não existe.

Meus pensamentos deram mais um nó. Como assim a realidade não existe? Como? Passei minha vida inteira querendo estudar Direito para fazer concurso público e ter a minha tão sonhada estabilidade. Isso significa que minha realidade era tão pequena e tão sem metas realmente boas que não eram reais? Eu não entendo? Eu sei que eu estava cursando o segundo período de Direito pensando nisso! Na minha estabilidade financeira! Se a realidade não existe, o dinheiro não vale nada... Como não vale?! Estou num mar de incertezas, me afogo até um ponto em que a pressão destrói o meu corpo e mente. Nem minha consciência livre consegue captar o que seria viver sem realidade! Por isso perguntei:

- Como pode existir então o livre arbítrio se não existe a realidade?

- Tudo é ilusão. Tudo é convenção, é uma sorte gigantesca de signos e significantes. O seu dinheiro não vale nada, a sua estabilidade é buscada para viver bem a mentira, a ilusão, o teatro. Não existe a realidade, ela é uma invenção humana. Nada é real.

- Como nada pode ser real? Não consigo entender!

Nesse momento, Caos disse para voltarmos ao planeta Terra. Então fez-se a luz branca e voltamos em uma colina gramada sob um belo céu azul. A brisa me agradava. Ficamos embaixo de uma árvore grande e na sombra conversamos: eu e Caos, sob a forma de uma mulher loira de túnica branca.


*****

Caos olhou para mim e sorriu vendo-me suspirar com a brisa deliciosa que passava pelo meu rosto.

- O que foi? – perguntei.

- Nada. Só é engraçado ver alguém ficar feliz com algo tão simples.

- É disso que o ser humano é construído, não é? De momentos. Nesse caso, um momento bom.

- De certa forma você está começando a entender. Esses momentos são conseqüência do livre arbítrio.

- Sim, eu percebi isso.

Os dois ficaram em silêncio até a brisa passar e ir agradar outros seres humanos.

- Por que a realidade não é real, Caos? Eu senti essa brisa, ela ativou meus sentidos e sentimentos. Como ela não pode ser real?

- Caro, como ela pode ser real? Eu é que pergunto a você. O que é algo real?

- Algo real? Simples. É tudo aquilo que eu posso ver, tocar, sentir, ouvir.

- Está vendo o porquê de eu separar sua matéria de sua energia (consciência)? Os sentidos nos enganam. Enganam para tranqüilizar a raça humana, para não deixá-los enlouquecer. Entretanto alguns enlouquecem quando percebem por si mesmos que os sentidos os limitam, que os sentidos são muros que precisam ser ultrapassados para compreender o mundo, os universos, as realidades. O real não existe, jovem. O real é no máximo o nome da moeda nacional brasileira. A moeda é real?

- É. Posso comprar objetos com ela.

- O papel é real nesse caso que você citou, mas o valor é pura convenção. Então não pode ser real. É um valor que não existe que se tornou real a partir de acordos. Então, como pode ser real? Não pode. Não é.

- Concordo com você que o valor pode não ser real e que só é considerado real porque existem as convenções, mas e o papel? Ele não é? Eu consigo senti-lo, vê-lo e até ouvir algo se o rasgarem. Como ele não é de verdade?

- Ele não pode ser real porque são interpretações.

- Interpretações?

- Lembra quando eu disse que o corpo, o seu lado matéria, é uma prisão ou a caverna como preferir?

- Sim.

- Então, seus sentidos lhe prendem, fazem você acreditar em coisas que nem sempre são daquela forma. Será que o que você vê é real? Existem animais que possuem sentidos muito mais aguçados que o ser humano, uns que não enxergam, outros que não ouvem... Os sentidos são limitações para o ser se encontrar. Quando você está na sua forma de apenas energia, ou seja, sua consciência, você consegue perceber a realidade de verdade e não a ilusão que você vive todos os dias de sua pacata vida, que inclusive, não deveria ter dias ou meses ou anos...

Olhei Caos ainda em sua forma feminina, tentando decifrar o que ele tinha me dito. Mesmo que a realidade seja uma simples ilusão e que mesmo que sejamos mesmo seres criados aleatoriamente, como irei encontrar a luz sendo um ser humano? Bem, ele me respondeu assim:

- Como ser humano, a luz é inatingível. Eu já disse que o corpo é a sua prisão. Basta você entender isso. A vida, a fusão da matéria com a energia, não pode ser considerada tudo. A vida também é efêmera, assim como qualquer estado de espírito. O seu estado não pode ser governado por um único sentimento. Não pense em se matar. Viva essa fase da melhor forma possível. Você é uma criança ainda, tem muito que aprender; tem muito que descobrir aqui. Quando você chegar a sua forma sublime, apenas energia, logo entenderá o que você precisava e o caminho para o conhecimento lhe será mostrado.

- Mas... quer dizer que a realidade é uma ilusão aleatória também?

- Sim. Parece um pouco duro, mas sim, a realidade nada mais é do que um conjunto de eventos aleatórios que deixei acontecer para saber no que iria dar. Como já disse antes, eu poderia ter feito tudo perfeito, mas por que faria uma coisa dessas?

- Você não sente tristeza ao ver pessoas morrendo, sofrendo, chorando?

- Não.

- Mas você não deveria ser misericordioso? Deus é...

- Eu não sou Deus. Sou Caos. Deus é uma invenção humana, assim como o picolé de morango. A ideia de Deus que os seres humanos em particular têm é singular, é errada. Eu, Caos, nunca fiz nada daquilo que acreditam que eu tenha feito. Entretanto, existem homens que procuram melhorar a sociedade, melhorar os seus mundos. Eles são deuses. São pessoas que vão contra a situação para mudarem algo, para serem mais que meros mortais presos em seus caixões de carne. Eu os Admiro: Jesus, Gahndi e muitos outros. Existem seres assim em todos os lugares dos universos. A inteligência dos seres criados aleatoriamente me fascina. Vejo milhões de problemas, principalmente no seu planeta, mas não irei prosseguir sobre isso, afinal de contas da minha perspectiva, pensar sobre isso é inútil.

- Quer dizer que você não se importa com a criação?

- Me importaria se eu a tivesse criado.

- E por que não faz nada para ajudar quem precisa?

- Por que assim não existiria livre arbítrio.

- Mas você é o início, não é?

- Não. Coisas triviais como início, meio e fim são outras invenções humanas. Não há nada disso. O que existe é a “eternidade plena”.

- Você está me complicando. Eu não estou lhe entendendo. Por que o tempo não existe? Temos relógios, ampulhetas, calendários, para que então? Somos apenas brinquedos, não é? Que sensação horrível. E por que você fala em universos no plural? Eu não lhe entendo mais. Está muito complicado para mim.

- Calma. Vamos voltar para a minha realidade. Voltemos a ser apenas energia. Vamos sair da caverna novamente.

A luz branca se fez novamente.

*****

Mais uma vez éramos apenas energia na imensidão branca e vazia.

- Então, explique-me a razão pela qual o tempo não existe também – queria saber o mais rápido possível. Meu chão estava caindo. Não estava acreditando no que via.

- Você pode me definir o que é tempo?

- Acho que sim. É a “sucessão dos anos, dias, horas, etc., que envolve a noção de passado, presente e futuro”.

- Você tirou isso do dicionário.

- Foi. Peguei no Aurélio.

- Tempo não é a sucessão de nada. Ele nem é. O tempo real está parado, nunca se mexeu. É o que eu chamo de “eternidade plena”. Não existe horas, minutos, anos, décadas...

- Mas então por que a gente envelhece?

- Porque vocês avançam no tempo.

- Mas você acabou de dizer que o tempo é estático.

- E é.

- Como nós avançamos? Impossível.

- Muitos acreditam que o tempo é uma linha, mas não. O tempo é um círculo. A linha é infinita ali dentro. Num circulo não existe inicio, meio ou fim. Na linha sim. Usando o circulo você percebe a plenitude do tempo. Ele é imóvel, são vocês que percorrem o círculo, porém o círculo não se mexe. Quando completam a volta, significa que já terminaram. E é no começo de tudo que se termina, o tempo não se dobra, não se curva, o tempo é o tempo somente. É o circulo do tudo, é o círculo geral. Não há como escapar dele. E a noção de início, meio e fim dentro de um circulo é tão pífia e inútil que é estúpido dizer que existe esse tipo de coisa. O tempo é “eternamente pleno”.
- Mas a morte é o final, não é? Então há o começo.

- Não. Já disse que somos feitos de matéria e energia. Essa energia não tem bem um fim. Ela volta a fazer parte de mim. Eu sou a fonte de toda a energia dos universos.

- Então o infinito não acaba... Parece idiotice isso, mas faz sentido agora. Eu acreditava que o tempo era infinito para frente no futuro e para trás no passado. Mas vejo agora que faz muito mais sentido se eu encará-lo como um circulo. A “eternidade plena” é mais aceitável. Nada começa, nada termina, tudo sempre existiu. Mas o infinito... ele me machuca.

- Machuca?

- Sim. Algo que nunca termina é triste demais.

- Não é. São os sentimentos humanos e interpretações de perspectivas diferentes que fazem ser.

- Tempo... realidade... tudo isso é ilusão...

- Saiba que há um preço para existir.

- E que preço seria esse?

- Conhecer o porquê da existência e enlouquecer com ele.

Sim, eu estava enlouquecendo aos poucos. Não compreendia como tanta coisa poderia estar acontecendo. Como que tudo poderia ser nada. Como o criador de tudo fosse tão relapso como um garoto observando formigas. Queria ter aprendido isso antes, mas não me ensinaram... ninguém sabia, talvez ninguém saberá da minha conversa com Caos, porém mesmo que eu um dia escreva um livro sobre isso, ninguém o compraria. Afinal, eu teria que ensinar através dos sentidos, teria que compreender as limitações. Teria que mostrar que o infinito é diferente do que imaginávamos, ele nunca acaba porque nunca começou. A ilusão... Amanhã, contarei como Caos me ensinou o que é o infinito e como se divide a realidade verdadeira, além de tentar compreender o que é a verdade absoluta... descobri que ela existe...


FIM DO CAPITULO 2 de 3


Termina amanhã!

2 comentários

  1. Amanda Aouad Said,

    Oi, Renan, estou aprimorando o CinePipocaCult aos poucos e o primeiro passo foi mudar para domínio próprio, o percalço é que com isso, o fedd foi alterado, assim como os links no blogroll, quando puder, altera aí na aba lateral por favor, por favor, senão ele não vai mais atualizar……

    http://www.cinepipocacult.com.br/

    feed: http://feeds.feedburner.com/cinepipocacult

    Valeu!

    Posted on 10 de novembro de 2009 18:14

     
  2. Às vezes ficamos a pensar o que seríamos perdendo a nossa identidade. quero dizer, começar tudo de novo. Esses dias eu estava vendo na televisão uma reportagem onde entrevistavam transeuntes, em frente á praça do Trianom, em São Paulo (reconheci o lugar na hora!), e a maioria das pessoas era contra a idéia de mudar-se de lugar e iniciar um vida totalmente nova, longe de tudo e de todos. teve até uma senhora que disse: "É covardia..."
    Bem, o teu blogue é muito inteligente, descobri ele através da amiga Deise, de Aracaju. Olha, gostei muito da história, e acho que fala de seres deslocados também, né, assim como eu fui e ainda sou. Mudei de vida, comecei do zero por causa de um sonho que não se realizou, mas acho que se tivesse que fazer tudo de novo, eu faria.
    Abração.

    Posted on 11 de novembro de 2009 07:21

     
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