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Viagem ao centro do “Eu”: Livre arbítrio

Postado por Renan Barreto On 13:20



- Eu me sinto bem... Embora não devesse sentir-me. Algumas vezes é difícil para um ser humano comum tentar entender as coisas da vida. Bem, foi isso que eu fiz. Fui até o criador de tudo. Uma coisa eu descobri: a ordem que vem do caos nada mais é que ilusão, porque o que há é apenas o caos. Aliás, Caos é o nome dele, o ser que criou tudo e a todos. Ele é singular e plural, ele é tudo... ele sou eu e você. Ele é uma planta na Terra e um monstro de Saturno. Ele é tudo o que há e o que sempre existiu. Contarei a você, leitor como foi o meu encontro com ele e o que eu descobri de nossa conversa. Sinto dizer que não poderei narrar o cenário porque eu não sei onde estava, mas posso dizer que era um lugar como nenhum outro, a casa do Criador.

Era uma bela manhã de outono quando tropecei na rua e um menino de 8 anos riu para mim. Ele era um garoto comum, num dia comum, vendo um acidente comum. Nada era excepcional, nada era novo, nada era... era bom... Eu não gostava da rotina do não entender o mundo, o porquê de tudo ser da forma que é. Apenas teorias... teorias... teorias... Não agüento ouvi-las! Não agüento ouvir nem minha mãe falando que é importante comer verduras... bem, eu não a ouço mais há um tempo. Um amigo disse que tudo estava ligado aos sentimentos e que felicidade é apenas o sucesso pleno, mas não passava de um estado de espírito, algo efêmero. Não queria saber se o mundo ou os nossos estados são assim, queria saber mais. Só queria ter o prazer de conhecer tudo antes de morrer. Não me importava em viver aprendendo, só não queria morrer ignorante. Foi então que, ao levantar desse tombo na rua olhei ao meu redor e tudo estava parado. As aves estáticas no céu, o menino com a boca aberta, a fumaça que não saia de seu estado cinzento, os carros petrificados, o mundo tinha se congelado, parado no tempo. Apenas eu me movia. Andei alguns metros para tentar entender isso. Um fenômeno assim não se vê todos os dias. Na verdade, nunca se vê.

Ao caminhar metros pela avenida em que estava, a mesma constatação veio à minha cabeça. O mundo enfim parou. Pensei que ele estivesse cansado de girar, quem sabe não tenha ficado tonto? Ele já gira há milhões de anos. Pelo menos de uma coisa estou certo, com o tempo parado ninguém pode mais reclamar que o tempo não dá tréguas. Continuei caminhando e observando as pessoas, uns tão apressados que até as expressões de seus rostos pareciam querer sair daquela situação. Pareciam querer encontrar descanso nos braços de alguém. É engraçado, porque a felicidade está tão ligada ao amor, não é? Por que a amizade não é boa o suficiente? Acho ela um sentimento tão sublime. Porém é o que eu disse anteriormente. Tudo é tão efêmero... “Tudo passa, tudo passará” já dizia alguém que não me recordo o nome. Nomes... sentimentos... abstrações que compõem essa grande ilusão que é a vida. Importantes para entendermos o que é real. Se bem, que só fui descobri que o real não existe um pouco mais a frente. Na esquina entre a Avenida 3 com a rua 33.

Não conseguia compreender de forma alguma o porquê de tanta inércia. Estava me sentindo... me sentia bem, embora não devesse. Talvez pela primeira vez na vida pudesse dizer que realmente estava livre. Eu podia andar até sem roupa que não seria repreendido nem por guardas, por idosas ou pelo superego. Nada nem ninguém me deteria. Estou sozinho num mundo que cansou de girar. Fui andando mais a diante e senti uma leve tontura e formigamento nas minhas pernas. Meu corpo estava leve e ali na esquina da Avenida 3 com a rua 33, uma luz veio e simplesmente sumi no espaço. Deixei o planeta inanimado para trás.

*****

A luz cegou-me. Meu corpo não existia. Tato para encostar em quê? A única coisa que podia ver era luz. Uma luz branca, confortável, morna. Percebi que eu era apenas a consciência do meu próprio ser flutuando no mar de nada, um limbo luminoso. Por incrível que pareça não me sentia perdido, não me sentia com medo. Me sentia bem... embora não devesse... Uma voz vinda de todos os lugares me dava as boas vindas.

- Onde estou? Quem é você?

- Uns me chamam de Caos outros de infinito. Me chame como quiser.

- Por acaso você é Deus ou o Diabo?

A voz parou de falar. Deu uma pausa como se estivesse tentando lembrar de alguma coisa até que enfim disse – Não os conheço. São amigos seus?

- Isso quer dizer que não estou no inferno nem no céu?

- Você está aonde todos estão. Só que de uma perspectiva diferente.

- Não entendi. Como assim perspectiva diferente?

- Você está vivendo o infinito. Está vendo de uma forma que eu vejo os universos e as realidades.

- Eu continuo sem entender.

- Preste atenção, meu caro. Quando um formiga vê um arbusto, para ela o mato vira floresta. Agora quando uma pessoa observa esse mesmo arbusto, ele é apenas um arbusto. E quando alguém passa de avião sobre esse local, o arbusto é invisível de tão pequeno que é. Hoje, podemos dizer que você está nesse avião. Sua perspectiva é totalmente diferente daquela que estava acostumado. Existem mundos dentro de mundos. O ser humano está dentro de um mundo, uma formiga está em outro, uma bactéria em outro, um átomo em outro... Perspectiva, meu caro é tudo.

- Entendi, quer dizer que você é o capitão desse avião? Você é o criador de tudo?

- Podemos dizer que sou o capitão sim, mas não sou o criador de nada. As coisas se criam sozinhas. O livre arbítrio só pode existir se não existir um criador. Vamos voltar para o seu mundo. Lá eu serei uma pessoa como você. O que me diz de um passeio pelas diversas formas de perspectivas?

- Claro – como se eu pudesse recusar.

- Então vamos.

*****

Do nada (literalmente) nos materializamos em frente a uma estação de trem. Eu com o meu corpo novamente e Caos como um senhor num terno cinza. Ao vê-lo brinquei.

- Um pouco clichê, não é?

Caos retrucou – Verdade, mudarei então.

O senhor transformou-se no menino de 8 anos que riu da minha queda há pouco – Gostou?
- Você tem senso de humor peculiar – virei-me e perguntei porque estávamos numa estação de trem.

- Bem, estamos aqui para eu lhe explicar o contrasenso que é a existência da figura de um criador e do livre arbítrio.

- Então comece, porque ainda estou confuso.

Caos apontou seu pequeno dedo indicador direito para o trilho do trem – Olhe, o trilho só leva o trem por um caminho. O criador do trilho deu a ferramenta de trabalho para ser usada da forma como o maquinista quisesse?

- Mas ele pode desviar para a direita ou esquerda em bifurcações.

- Claro.

- Então, há livre arbítrio.

- Ah! Ah! Ah! Não é bem assim. Você está preso. O livre arbítrio nada mais é do que a liberdade de se fazer aquilo que desejar. O trilho de trem lhe proporciona escolher entre opções pré-criadas e não lhe dá a possibilidade de escolher o infinito.

Fiquei mudo.

- Você gosta de videogames?

Me surpreendi com o que Caos disse. Afinal de contas ele era o ser supremo. Como ele viria me falar de videogames?! – Gosto, mas o que videogames têm a ver com livre arbítrio e trilhos de trem?

- Muito mais do que você imagina – respondeu ele – Nos videogames há um mundo criado, fictício (aliás, todos os mundos são fictícios). Lá, você pode pular, bater, se abaixar, fazer quase tudo, certo?

- Certo.

- Mas quando você caminha por esse mundo, há uma ordem, não é? Você não pode pular mais alto, não pode ir para um caminho que não tenha sido programado pelo criador. É mais ou menos assim na “realidade” dos criados. Eu nunca criei ninguém, eu faço as coisas se criarem. Se eu quisesse que tudo fosse perfeito, tudo seria, mas qual é a graça na perfeição? Ela é chata.
- Caos, estou assustado com o que disse, mas me fez sentido. Quer dizer que tanto Deus quanto o livre arbítrio existem?

- Deus eu não sei. Nunca me achei tão importante. Sou apenas tudo. Tudo está falando com você nesses momentos. Então, podemos dizer que você está falando com você mesmo. Você faz parte do todo também. Você também sou eu. O livre arbítrio sempre existiu, meu jovem. Não é questão de fé é questão de lógica.

- É estranho falar em lógica com alguém como você.

- Ah! Ah! Ah! Eu adoro falar com seres como você. Me divirto. Acho que se eu tivesse criado realmente as coisas, o cosmos, ele não seria tão interessante assim.

- Então, quando as pessoas rezam, é inútil?

- De forma alguma. Eu já lhe disse que eu sou tudo. Estou dentro de cada morador desse e de outros universos. Quando as pessoas rezam, elas precisam imaginar. Seus pensamentos podem moldar a realidade sim. Como já disse, a realidade não é bem real. Mas lhe explicarei isso mais tarde. Por ora, fique sabendo que você vive um espetáculo não ensaiado. Apenas isso. As regras foram criadas por vocês. Puro improviso. Eu nunca teria paciência para escrever livros, manuais de instrução. E se o tivesse feito seria direto e não cheio de alegorias. Deixo isso para as pessoas que gostam de escrever difícil.

- Quer dizer que você não nos ajuda? Não ouve nossas preces?

- Não. É muita coisa junta. Eu não posso resolver todos os problemas dos universos. Eu sou a consciência do todo, de tudo. Não crio e nem modifico nada. Sou tudo e todos. Então nada mais justo do que deixá-los mudar suas próprias realidades através de suas preces, que dependendo da intensidade podem “mover montanhas sim.”

- Podem?

- Claro. Pense bastante positivamente. Ao pensar de forma boa, energias positivas sairão de você e anularão todo o mal que estão indo em sua direção. Para mim a dicotomia do bem e mal não existe. Você deve tentar perceber isso. O mal para você nem sempre é o mal para outra pessoa. É tudo uma questão de perspectiva. Quantas vacas você já não comeu?

- Muitas, acho.

- Algum indiano ou alguma vaca acharia você bonzinho por comer vacas?

Emudeci...

- Bem, vamos voltar para a minha perspectiva.

Uma luz branca cegou-me e veio tão de repente que não tive tempo nem de gritar.

*****

De volta ao limbo luminoso e sem forma, me perdi entre meus pensamentos. Me descobri aos poucos e fui percebendo que sou Caos também. Ele sou eu, ele é tudo, então... tudo é Caos, e a ordem é caótica. Mas ele pediu para eu digerir essas ideias para me mostrar a segunda parte de nossa viagem amanhã. Ele prometeu que me explicaria melhor o porquê de a realidade não ser tão real como imaginamos...

- Eu me sinto bem... Embora não devesse sentir-me. Não me sinto. Não tenho corpo para isso no momento.

Nos próximos dois dias

4 comentários

  1. Caro, Renan, que bom que foi ao Apimentário. Sim, sempre vinha aqui e não comentava, mas agora farei mais isso, viu? se puder, seja meu seguidor lá, pode? abs

    Posted on 9 de Novembro de 2009 20:03

     
  2. Nosss, me falararam que o nome dele é Ordem, e vc vem me dizer que o nome dele é Caos, hrssssss

    Posted on 10 de Novembro de 2009 19:40

     
  3. Rua 33 com av3 tá me cheirando armardilha, hehe, mas enfim...
    como se sentiu realmente depois de tamanha extra-sensorialidade!?

    Abraço!

    Posted on 10 de Novembro de 2009 19:44

     
  4. Preso em um mundo em que nós mesmos criamos. É mais ou menos dessa forma que eu poderia sintetizar toda a filosofia presente neste conto.

    E então retornamos ao bom e velho Platão com as sombras na caverna e o que é a realidade, de fato. O que pode ser considerado realidade, afinal de contas? Um dia o homem olhou para o céu e percebeu que a água que alimentava rios, matava sua sede...e o sol, que iluminava o dia e fornecia calor...e os raios, que forneciam fogo (até que o homem primitivo "domou" essa matéria)...tudo isso vinha do mesmo lugar e alguém enviava. Uns chamaram de Tupã, outros de Zeus, outros de Deus, outros de Rá e assim por diante.

    Diversas realidades em uma só ideia, digamos. O livre arbítrio, desta forma, não houve. "Você tem como escolher seus deuses". Como, se basicamente todos tem a mesma origem?

    Como há livre arbítro se os passos que damos são guiados por alguém ou alguma coisa que não sabemos explicar ainda ou talvez jamais saberemos?

    Há quem diga que o Universo é lógico e estou propenso a crer nisso. Mas é algo muito complexo para minha mente limitada e finita (graças a Deus, seu cabeçudo!)

    Bem, depois dessa verdadeira viagem, deixe-me recuperar um pouco para distinguir o meu realismo do idealismo daquilo que eu gostaria de ser.

    Abraço, Renan Sartre!

    Posted on 13 de Novembro de 2009 20:10

     
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