domingo, 4 de outubro de 2009

O menino do balão



Diana era uma menina tímida que não conseguia se relacionar com ninguém. Suas únicas amigas eram duas bonecas de porcelana que ela guardava dos tempos que era criança. Sua vida sempre foi igual, fazendo de seus dias apenas cópias. Nada de novo acontecia e sua juventude estava se perdendo em sonhos impossíveis e pelo medo das pessoas. Ela morava perto de uma montanha onde diziam que a mais bela flor existia, entretanto ninguém nunca subiu lá porque ao redor dessa montanha havia uma floresta muito densa e escura. Diziam que essa flor era mágica e que traria a felicidade eterna para a pessoa que a colhesse. 

Ela era descrente porque todos em seu vilarejo diziam que o que adiantava a felicidade se a morte podia ser um preço? Um preço tão alto quanto esse não valia a pena, afinal existem muitas formas de se conseguir a felicidade sem o risco de morrer. A pobre menina não se importava com o que diziam, pois para ela toda forma de felicidade era apenas um sonho. Ela nem sabia se esse sentimento era de verdade. Muitos falavam sobre ele, mas o que adianta se ninguém sabe o que é realmente? Não havia consenso sobre o que era essa tal de felicidade. Um homem chegou a dizer que era a vizinha dele que se chamava Felicidade Antunes. Um belo nome, mas não era essa felicidade que Diana procurava. 

Um dia ela acordou decidida a encontrar a flor da felicidade, como ela mesma apelidou. Mas sua jornada era longa. Tinha que atravessar uma floresta densa, cheia de perigos e mistérios. Diana não se importava mais com isso. Ela queria era saber se a felicidade existia mesmo ou se era só uma palavra sem significado como Deunáltico, ou seja, um amontoado de letras sem valor agregado. A menina não queria acreditar que uma palavra tão bonita não tinha razão para existir. FELICIDADE... Não demorou muito, ela tomou seu café da manhã e partiu para sua aventura solitária. 

Ao chegar na floresta, ela se livrou de vários insetos e passou um dia inteiro caminhando para chegar ao pé da montanha. Ao subir ela sentia falta de ar, cansaço do dia dentro da mata, mas nada a atrapalhava porque seu sonho estava se realizando, ou melhor, sua curiosidade estava pelo menos. Ela passou um dia e meio apenas subindo e ignorando a morte. As pessoas costumavam ter medo da montanha porque diziam que a morte rondava a floresta, mas tudo o que Diana viu foram árvores e animais e nenhum super ser de capuz preto e rosto cadavérico. Enfim, ela conseguiu chegar ao cume após poucas pausas para refeições rápidas. No topo da montanha ela viu uma bela flor branca. A menina se aproximou da planta e a tocou suavemente. Seu corpo não havia modificado, ela não estava alegre, sua vida estava igual! Então, Diana foi pega por qualquer coisa menos felicidade. Era mais uma ação frustrada na sua vida. Ao largar a flor, a menina ouviu alguém gritando.

- Ei! Ei! Por favor, me ajude! 

Ela virou-se e o dono dos gritos era um menino dentro de um balão colorido que estava preso na montanha. Diana então foi correndo ajudá-lo. O garoto tinha se prendido nos galhos de uma árvore. Por isso o balão não subia mais. Ele queria que ela o ajudasse a sair dessa enrascada sem precedentes. 

- Menino, como você chegou aí em cima? – Nesse momento ela lembrou do balão – Esquece o que eu disse. Mas o que eu posso fazer para ajudá-lo?

- Primeiro você pode me ajudar a descer daqui. 

Ela o ajudou a descer da árvore e ambos caíram no chão. Ela ainda meio tímida deu um sorriso, daqueles que só se dá em momentos engraçados e embaraçosos. Os dois sentaram e observaram o horizonte visto da montanha. Um horizonte ainda escuro porque era madrugada. Os dois estavam em silêncio por muito tempo até que o menino começou a falar:

- De onde você vem? 

- Eu venho de um vilarejo próximo – Respondeu Diana.

- E é bom viver lá? 

- É sim... 

A menina não convenceu o garoto, que por sua vez fez outra pergunta – Qual é o seu sonho?

- Sonho? Eu não tenho nenhum. 

- O quê?! Você não tem vontade de conhecer o que há além dessas terras ou conhecer pessoas novas?

- Na verdade não. Eu só queria subir aqui e descobrir o que tinha de tão especial nesse local. Muita gente tem medo de subir, porque falam da morte na floresta. Dizem que é aqui o lugar onde se encontra a felicidade, mas para isso deve-se vencer o medo de morrer. Histórias que o povo conta. 

- A felicidade? 

- Sim. Eu vim tentar entender o que é. 

- E já conseguiu entender?

- Eu acho que é a flor branca. 

Os dois sorriram um para o outro como se não precisassem sorrir para mais ninguém. 

- Menina, você me parece ser uma pessoa tão triste... 

- Você acha? 

- Sim. Não sei lhe dizer o motivo, mas é o que veio na minha cabeça. 

- Acho que sei o porquê disso. 

- Quer dividir comigo? Você sabe que uma dor dividida se transforma apenas em meia dor. E meia dor é mais fácil de suportar.

- Eu sei, mas é que eu vivo uma vida que mais parece uma moeda. Cara é um dia nublado e coroa é um dia chuvoso... Não sei mais o que fazer.

O menino a olhou bem nos olhos e disse:

- Já tentou jogar mais vezes e acreditar que a moeda possa cair de ponta? Quem sabe com ela em pé, o dia não seja ensolarado? A vida não tem só duas opções.

Diana se calou, esboçou um choro. Ficou sem respostas, pois o que o menino do balão disse era o que ela precisava ouvir. Existem muitos caminhos na vida, que não podem ser limitados por uma escolha entre duas opções. Os dois então ficaram em silêncio por alguns segundos e perceberam que o céu estava tomando uma cor estranha, meio rosa, meio laranja, meio azul. Estava amanhecendo...

- Como é bom respirar ar puro e esquecer do mundo. É tão difícil isso acontecer. 

- É por isso que você voa de balão?

- Vamos dizer que sim, menina.

- E de onde você veio? 

Ele se levanta e diz:

- Vim de lugar nenhum, mas também não busco nenhum lugar. Quero apenas viajar e tentar ser feliz buscando coisas novas... Novas moedas para jogar talvez...

Diana se encantou com as palavras do garoto que aparentava nas palavras ser um idoso e não um menino sem experiências. “Seria ele um anjo?”. Ela se perguntou. “Não, anjos não voam de balões”.

Ela se levantou também e resolveu ajudá-lo com o balão. Eles conseguiram soltar o balão da árvore e o garoto subiu e sem motivos aparentes resolveu estender sua mão à Diana. 

- O que isso significa? – disse Diana. 

- Significa que eu quero que você jogue uma outra moeda.

Diana ficou parada e pensativa... Após observar o horizonte já claro, com luzes com todas as cores quentes que ela podia imaginar, ela partiu em direção ao garoto, subiu no balão e perguntou:

- Nossa. Eu nem sei o seu nome. 

Enquanto ele colocava na cabeça dela uma flor branca, com um sorriso no rosto ele disse:

- Nomes são apenas abstrações. Me chame de João, Ricardo, Yuri, Pedro, Jaime, Marcelo, o que quiser. Não me importo. Pode até me chamar de meu amor ou meu melhor amigo. Qualquer coisa mesmo. Eu não ligo.

- Vou lhe chamar de Felicidade.

- Isso é nome de mulher! 

- Mas você disse que não importava o nome.

- Está certo. Touché.

A partir desse dia ninguém soube mais de Diana, porém todos viram um balão voando pelo céu alaranjado numa manhã de quarta-feira. Uns dizem que ela morreu, outros dizem que encontrou a felicidade. A verdade, ninguém realmente sabe. O que importa é a história que as pessoas têm para contar, e as moedas que têm para jogar.

13 comentários:

Cintia Carvalho disse...

Oi Renan!
Que história linda!!!!!!!!!!!
Belo conto!!!!!
Singelo, suave, doce, simples e belíssimo.
Eu adorei e me emocionei.
Parabéns!!!!!!!
Um abraço.
Cintia Carvalho

Marcelo A. disse...

Caraca, Renan... Dessa vez, você se superou! Faço minha as palavras da Cintia: singelo, suave, doce, simples e belíssimo. E acima de tudo, me deixou matutando sobre essa coisa que a gente vive buscando e que se chama felicidade...

Você já viu um filme antigo chamado "O Pássaro Azul"? É uma fábula que trata sobre o real sentido da felicidade, onde ela mora e como encontrá-la. Diana a encontrou do seu jeito. Foi preciso entrar a floresta e enfrentar o medo de morrer. Quantas florestas não estão aí pra serem desbravadas, quantos medos a serem vencidos? Tudo a ver... às vezes, a gente não é feliz por puro medo!

Ei, o garoto pode se chamar Marcelo, é? Gostei... hehehehe! Só não gostei de ter sumido lá do "Diz". Espero que não seja nada pessoal... Uahahahhahaaaa!!!!

Abração e felicidades!

Amanda disse...

É, você é mesmo um poeta, heim? Uma bela história, cheia de metáforas interessantes e o eterno sonho da felicidade. Parabéns.

bjs

Inez disse...

Vendo seu blog é fácil saber porque você ganhou o prêmio.
O menino do primeiro comentário no blog nem leu o texto.
Ao meu ver o buraco nessa fraude é bem mais embaixo, tem muita coisa estranha, nunca ouvi flar de pessoas que fraudaram prova e foram ofercer logo para jornais.
O inep já estava com problemas antes disso, tinham feito a distribuição de locais de prova errado, havia estudants que tinham que viajar até 300 km para fazer a prova.

Inez disse...

Bom serviu sim, pra mostrar que ele seria muito bom no que fazia antes de ficar rico. Eu me diverti muito na época porque ele é muito simpático, mas, simpatia e inteligência são coisas bem diferentes né!
Ele levou 6 anos para terminar o ensino Médio.

Caio Coletti disse...

Lindo texto! Acho tão bonito quando um escritor consegue trabalhar não só a a tristeza e a realidade, mas também a felicidade, esse grande ponto de interrogação que todos procuramos!

Você escreve de um jeito simples, solto, delicioso de se ler, parabéns pelo talento e pela presença de espírito de tratar de um assunto tão delicado com tamanha leveza e elegância.

Abraço.

Armando Maynard disse...

A vida é feita de sonhos, desejos, dúvidas, alegrias, decepções e muitas experiências, que aos poucos nos fazem ir desbravando paulatinamente o dia a dia, com ajuda de pais, familiares e amigos. Todo começo é difícil e com a vida não é diferente, quando um pequeno ser frágil, tímido e medroso, tem que enfrentar um mundo desconhecido, cheio de dificuldades, surpresas e desafios. A partir do momento que passamos a ter consciência, iniciamos a busca da realização de nossos sonhos (projetos de vida) cuja meta é a nossa realização (consciência tranqüila, segurança e paz). Tudo isso para ser encontrado é preciso que se perca o medo, e se vença barreiras e obstáculos, para que no fim se conquiste o almejado por todo ser humano que é a felicidade. Para isso, às vezes, é determinante a ajuda de um amigo, que, possuidor de mais sabedoria, tenha o poder de nos fazer abrir a mente e os olhos para um mundo novo, que se descortina à nossa frente e que, até aquele momento, não conseguíamos enxergar. Caro Renan, essa é a minha leitura de sua bonita fábula.

Quanto ao seu pertinente comentário no blog Mídia Depressa, tenho a dizer que sou do tempo do grande “Jornal do Brasil”, das revistas “O Cruzeiro” e “Manchete” com seu cheirinho de papel e tinta, tradicional da editora Bloch. Até hoje sou fascinado por bancas de revistas & jornais e continuo amante da mídia impressa e não quero de forma alguma que acabem. Concordo com você, achando também que tem que haver uma mudança radical na mídia tradicional e certamente haverá, com a mesma se democratizando muito mais ainda, dando a importância devida a quem merece - o leitor, aumentando seu espaço nas sessões de cartas e opiniões, para que ele possa expor mais suas idéias e críticas, dinamizando a interatividade, que nesses meios, comparado à mídia digital, ainda deixa muito a desejar, resquícios de compromissos, vaidade, orgulho e medo. E continuo torcendo sempre, pelo que é mais importante, um jornalismo de conteúdo, cada vez mais ético, responsável, isento, verdadeiro e transparente, para que tenhamos um povo de opinião, bem informado, politizado, educado, culto e consciente de seus diretos e deveres. Tenho dito! Um abraço, Armando.

LETÍCIA CASTRO disse...

Eu achei brilhante o texto que, no começo, escondia totalmente o seu potencial.

Esse é o highlight pra mim, além do desfecho:

"- Quer dividir comigo? Você sabe que uma dor dividida se transforma apenas em meia dor. E meia dor é mais fácil de suportar.



- Eu sei, mas é que eu vivo uma vida que mais parece uma moeda. Cara é um dia nublado e coroa é um dia chuvoso... Não sei mais o que fazer.



O menino a olhou bem nos olhos e disse:



- Já tentou jogar mais vezes e acreditar que a moeda possa cair de ponta? Quem sabe com ela em pé, o dia não seja ensolarado? A vida não tem só duas opções."

Isso é genial e faz bem pra alma ler.

Meu querido Renan, como é que eu posso demorar tanto tempo pra passar por aqui? Já não vou mais pedir desculpas, não tenho mais coragem, a falta de tempo virou um empecilho crônico nessa etapa da minha vida e o jeito é aceitá-la, enquanto não há outra opção.

Mas, é temporário e no momento certo, prometo que vou jogar outra moeda. ;)

Eu amei quando vc indicou o Babel para o Blog Day, viu? Tô longe de ser Mulher Maravilha, meu amigo, vivo numa busca incessante de me aproximar ao The Flash. hehehehe (eu sei, horrível de novo rs)

Beijo muito carinhoso e, apesar dos meus sumiços, eu adoro vc, não se esqueça, tá bom?

Keep it up, please! ;)

LETÍCIA CASTRO disse...

Ahhh outra coisa que quase me esqueci...

"Diana" na verdade voltou pra casa, não é? ;)

Beijos!

Camila Goneli disse...

Amiguinho, que coisa mais linda!!!

Merece entrar no livro.

Beijos emocionados.

Jaime Guimarães disse...

Renan,

acho que você já me diz isso de vez em quando, sobre como você escreve: por estar acostumado a escrever roteiros para TV e rádio, a coisa sai meio "automática".

Evidente que eu entendo ser o "automático" apenas no modo de escrever, tipo, sem rituais. É sentar diante do computador e escrever. E as palavras fluem facilmente.

Uma pessoa que escreve um conto como esse não pode se denominar "automático". É inspiração pura, é muita sensibilidade envolvida em cada trecho, em cada personagem.

Eu já recomendei a você a leitura de Tchekov, ao menos para conhecê-lo. Leia e depois me diga o que achou do escritor russo. E mais: leia alguns contos dele e leia alguns contos que você escreve. Não para efeito de comparação, isso não, mas para perceber o que é sensibilidade para perceber as pequenas coisas do cotidiano e conferir beleza a elas.

E, como mote, a felicidade. Como estamos à procura dela e como nos fechamos em medos e crendices, não é? Incrível!

Um grande abraço, parabéns!

PS: gostei do nome "Jaime" ali no conto. Realmente, um bonito nome, viu? uhauhauhauhauhuhauha!

Rubens Medeyros disse...

Caramba Renann meu velho vc tem talento demais com as palvras.

Tava devendo a leitura desse texto né? Nossa cara adorei o fim a forma como vc conduziu o imaginario das pessoas ao fato do balão...o sumiço da menina ganhou fins poéticos.

Diana não foi um nome intencional foi? Pq é tb o nome da deusa grego/tomana da caça, caça, procura pela felicidade?

=D cara, show de bola.Podemos trabalhar o tema felicidade pra sunshine de verão, muito bom ficaria àpartir deste foco.Procura.


Abraços e boa semana!

gilda disse...

Parabéns, Renan, pela beleza, pela suavidade das imagens, pela facilidade e elegância com que você vem usando as palavras. Seu talento se revela a cada dia maior!
Beijos

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